A Rotina de um Analista de Ações

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Alguns leitores já haviam me sugerido falar sobre quais são as atribuições de um analista de ações, como é a sua rotina e também que características ele deve possuir para ser bem-sucedido nesta profissão.

Pensando nisso, convidei um amigo para escrever sobre este tema. Ele se chama Vitor Mizumoto e já trabalhou tanto no buy side como no sell side (ele explicará o que significa isso) e atualmente está em uma casa de research independente.

Faça bom proveito do texto abaixo!!!

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Olá pessoal,

Gostaria, primeiramente, de iniciar esse post agradecendo ao meu grande amigo Paulo, que me pediu para fazer essa contribuição ao blog. Acredito que a maioria de vocês, leitores do Analisando Ações, não saiba, mas Paulo e eu, fomos colegas de trabalho no início de nossas carreiras no mercado financeiro, quando trabalhamos juntos com o Cesar Paiva na Real Investor, por quem também guardo imenso apreço. Paulo, além de um brilhante analista, também foi uma das pessoas mais importantes em meu início de carreira e é por isso que fico muito feliz em poder contribuir com o crescimento desse espaço.

Passada a parte dos agradecimentos, gostaria de me apresentar. Me chamo Vitor Mizumoto e sou Analista de Ações. Passei por instituições financeiras tanto de buy side (fundos de investimento) quanto de sell side (corretora) e, atualmente, ocupo a posição de analista de ações em uma consultoria independente de análise.

No post de hoje, conforme as diretrizes passadas pelo Paulo, falarei sobre a rotina de um analista de investimentos. Primeiramente, é importante ter em mente que existem diferentes tipos de analistas e, conforme os lugares para os quais estes trabalham, a rotina pode mudar substancialmente. Porém, pelas experiências que tive, e pela a convivência com pessoas bastante vividas no mercado, arriscaria dizer que, independentemente do tipo de analista, a rotina é cerca de 60/70% a mesma. Vou começar descrevendo os tipos de analistas e instituições para os quais estes podem trabalhar, e depois darei ênfase mais nas tarefas diárias de um analista de ações, onde acredito poder contribuir de forma mais efetiva, já que vivo na prática essa profissão.

Conforme dito no início do texto, um analista pode ser caracterizado como de buy side, sell side, ou de consultoria (o que a CVM, erroneamente, na minha visão, ainda caracteriza como de sell side).

O analista de buy side é aquele que trabalha dentro de fundos de investimento, diretamente ligado às tarefas de gestão de portfólio, seja dentro de gestoras independentes, gestoras de bancos ou mesmo de fundos de pensão.

O analista sell side é aquele que trabalha dentro de corretoras de valores mobiliários, seja ela independente ou de banco. Nesse caso, o analista não trabalha diretamente com gestão de patrimônio, mas sim com recomendações e análises para os clientes (PF ou Institucional) da corretora.

Há, ainda, o analista de consultorias independentes, que, grosso modo, tem as mesmas tarefas de um analista de corretora, mas que segue um caminho mais focado no apoio direto ao cliente, mais recorrentemente por meio de relatórios, sem estar envolvido direta ou indiretamente com intermediação financeira. Nas consultorias de análise, o foco é fidelizar o cliente por meio, somente, de boas análises.

Qualquer que seja o tipo de analista (buy side ou sell side), este pode estar mais focado em equities (ações) ou em renda fixa.

O analista mais focado em renda fixa busca estudar os títulos de dívida de empresas (LCI, LCA, Debêntures) entendendo os riscos do negócio, e a capacidade presente e futura de pagamento do emissor do título. Já o analista de ações, apesar de estar focado em pontos bastante parecidos com os que um analista de renda fixa é acostumado a olhar, está mais preocupado com os níveis de rentabilidade, lucratividade, geração de caixa, perspectivas do negócio, vantagens competitivas em relação aos concorrentes e, claro, o preço das ações.

A rotina de um analista, usualmente, não é fixa/inflexível, isso varia um pouco de acordo com o jeito de pensar do analista e da instituição para qual ele trabalha. Mas, grosso modo, poderia resumir as tarefas diárias nos seguintes pontos:

  1. Absorção de informações;
  2. Interpretação das informações e mensuração de impactos;
  3. Modelagem;

Na parte de absorção de informações, nós geralmente recorremos, logo no início da manhã, aos plantões da CVM, onde é possível encontrar todos os documentos enviados diariamente pelas empresas ao mercado, e depois aos jornais, notadamente os de maior circulação nacional e internacional. Outras fontes cruciais de informações são os terminais da Bloomberg e Thomson Reuters, onde encontramos, além das informações circuladas nos jornais, insights quantitativos importantes, como o desempenho de mercados, compilações de dados e séries temporais de empresas e países, e análises em geral. Os terminais não são imprescindíveis para a atividade de análise, mas são, sem dúvidas, uma fonte muito valiosa de ganho de produtividade para o analista, dado que esses softwares ajudam na compilação e extração rápida de dados, além de ajudar no entendimento da relação entre variáveis diversas de uma forma rápida e intuitiva.

Após a parte de absorção de informações, o analista passa para a parte onde realmente é gerado valor, que é a intepretação das informações e a modelagem das implicações dos acontecimentos para os mercados e ações sob sua cobertura. Nesse ponto, é exigido do analista que ele possa mensurar os impactos, por exemplo, da alta ou da baixa da taxa de juros, ou mesmo de uma aquisição ou venda de ativos, para uma determinada empresa, levando em consideração as implicações desse evento para o esperado aumento ou redução dos lucros e geração de caixa estimados. Entendendo esses pontos, o analista é capaz de mensurar os impactos sobre o valor justo das ações, ou seja, quanto o valor intrínseco da companhia mudou após a inserção das novas informações. Com essas ferramentas em mãos, ele é capaz de julgar se as ações estão baratas ou caras e, consequentemente, realizar recomendações aos seus clientes.

Bom pessoal, acho que é mais ou menos isso. Mas se tiverem dúvidas, me contatem por algum dos canais listados abaixo:

vm@elevenfinancial.com

https://www.linkedin.com/in/vitormizumoto/

https://twitter.com/VitorMizumoto

Um abraço!

Vitor Mizumoto

Graduado em Administração de Empresas, Pós-graduado em Finanças e Analista de Ações na Eleven Financial.

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Apenas complementando o que o Vitor escreveu acima, listei algumas características que acredito ser comum entre os profissionais desta área:

  1. Concentrado, pois é necessário passar grande parte do dia lendo e estudando;
  2. Gostar de desafios, pois não é simples e muito menos trivial o bussiness de grande parte das empresas e setores objeto de estudo;
  3. Curioso, pois é importante estar atento as mudanças que afetarão o mundo nos próximos anos. Obviamente essas transformações impactam muitas empresas listadas na Bolsa de Valores;
  4. Pensamento probabilístico, pois a incerteza sempre existirá. É impossível acertar com exatidão os resultados futuros de uma empresa, logo é muito importante pensar nas probabilidades e investir em ativos que possuem retorno assimétricos;
  5. Ser crítico e reflexivo, pois se uma tese de investimentos não se concretizar, provavelmente haverá perda de dinheiro. Aprender com os próprios erros é muito importante, mas melhor que isso é aprender com os erros dos outros, pois assim não há perdas financeiras;
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Paulo Garcia
Paulo Garcia
Me chamo Paulo Garcia, sou graduado em engenharia química e apaixonado pelo mercado financeiro. Essa paixão surgiu quando comecei a trabalhar em um fundo de investimento de ações em 2014. Eu acredito que investir em ações é a melhor forma de construir riqueza e patrimônio pensando sempre no longo prazo.

13 Comentários

  1. Leonardo Moura disse:

    Excelente post Paulo! Me tira uma dúvida, o que o Vitor quiz dizer com “plantão CVM” ? É m site, software ?

  2. Excelente artigo, parabéns!

    Explicou muito bem as tarefas, colocou os leitores por dentro do trabalho de um analista, havia grande interesse dos leitores sobre esse assunto.

    Bom complemento sobre as características necessárias para ser analista

    Abraço

  3. Douglas disse:

    Paulo, tenho uma dúvida sobre calcular o ROE, será que poderia me ajudar???

    • Douglas disse:

      ROE da ABEV3, estou olhando esse último balanço que divulgaram do 3T 17, e não fecha com as informações que acho na internet.

      • Paulo Garcia disse:

        Olá, Douglas.
        Normalmente a informação contida no site fundamentus está correta.
        Caso queira calcular manualmente o ROE basta abrir os últimos 4 releases da empresa, somar o lucro líquido dos 4 períodos e dividir pelo patrimônio líquido do último trimestre (no caso dela o 3T17, pois ela já divulgou o seu resultado).
        Abraço

        • Douglas disse:

          PAULO muito obrigado, não sabia que tinha que somar os 4 períodos de lucro liquido, me ajudou muito.

          Seria pedir demais sobre o calculo do PL?? PL=PREÇO AÇÃO / LPA(LUCRO POR AÇÀO), o problema é achar essa LPA, conseguiria me ajudar?? Não fecha de jeito maneira.

          Apenas para você entender, estou fazendo uma planilha com esses dados retroativos até o 1T de 2014, das empresas que tenho investido e das que pretendo investir, assim fica mais fácil para analisar o histórico, pois não se acha esses dados retroativos e quando se acham estão um pouco em cada lugar, assim estou juntando todos numa planilha.

          • Paulo Garcia disse:

            Olá, Douglas.
            As empresas informam o lucro por ação em um documento chamado de ITR. No site delas é possível encontrar este documento. O LPA será informado nas DFs Consolidadas/Demonstração de Resultado.
            Lembre-se de somar o LPA dos últimos quatro trimestres.
            Se quiser encontrar essa informação pronta, basta acessar o site http://www.fundamentus.com.br
            Qualquer dúvida estou a disposição.
            Abraço

  4. Luiz disse:

    Ótima matéria! Obrigado pelas informações.

    Qual seriam as vantagens/desvantagens de trabalhar do lado Sell side / buy Side? Vantagens/desvantagens em Trabalhar na gestão de um fundo ou em uma casa de análises ?

    Conflitos de interesses em cada caso?

    A remuneração de uma casa de análises também possui variável ou apenas fixo?

    E quanto ao que lemos em alguns livros sobre visitas a empresas, isto acontece? Com que frequência?

    • Vitor Mizumoto disse:

      Oi Luiz! Desculpe pela demora pra responder.

      Então, vantagens e desvantages são coisas bem difíceis de falar porque é meio pessoal. Pra alguns analistas é melhor sell side, pra outros buy side. Depende do perfil.

      Diria que no buy side vc tende a ter mais skin in the game, porque você tá com o dinheiro sob sua responsabilidade diretamente. No sell side, indiretamente você também tem skin in the game, mas não é diretamente que nem no buy side. Casa de análise (tipo a Eleven) fica mais no meio.

      No sell side a carga de trabalho costuma ser maior, você tem que ir em mais eventos…Aparecer faz parte. No buy side nem tanto.

      Enfim, diria que no buy side as pessoas mais low profile se dão um pouco melhor, mas não é regra.

      Nos 3 casos remuneração variável existe.

      Desvantagem de sell side é que tem mais regras, CVM fica na cola e você precisa tomar muito cuidado com o que faz e com o que fala (e eu acho isso ótimo porque passa credibilidade)

      Em casas de análise, por exemplo, você não pode ter carteira própria (pelo menos onde trabalho) por causa de conflito de interesse. Então só dá pra investir em ações via fundos mesmo.

      Acho que é mais ou menos isso.

      Abraço

      • Luiz disse:

        Obrigado pela resposta Vitor!
        Tenho dúvida também com relação ao ambiente do trabalho… existe horário flexível ou normalmente é das 8-18h mesmo? Existe muita pressão e cobrança por resultados? Ou nada comparado a quem trabalha com metas de vendas mensais?

        • Paulo Garcia disse:

          Luiz,
          Acredito que tanto em fundos de investimentos, quanto corretora ou casas de research os horários não são flexíveis.
          Normalmente em empresas relacionadas ao mercado financeiro o expediente é das 9:00 às 18:30, sendo que em vários casos este horário se estende.
          Como as atividades no mercado financeiro envolvem dinheiro, é comum haver bastante pressão no trabalho. Não sei se é mais do que com quem trabalha com metas de vendas mensais, mas há pressão sim.
          Abraço

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