Demonstrativos Financeiros – DRE

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Warren Buffett já comentou em várias ocasiões que a contabilidade representa a linguagem dos negócios. Segundo ele, se você não sabe ler o placar, não saberá como anda o jogo, tornando impossível distinguir os vencedores dos perdedores.

A contabilidade tem como função principal a mensuração do lucro e reportar a posição patrimonial em determinado período, e também acompanha a evolução patrimonial das entidades. Outro papel importante da contabilidade é atender as exigências do Fisco que são grandes interessados, pois baseando-se na contabilidade é que são arrecadados quase todos os impostos, e é também através dos demonstrativos contábeis que o governo pode fazer análises estatísticas da situação econômica do país.

Os três principais demonstrativos financeiros utilizados por investidores, credores e governo para avaliar a situação de uma empresa são:

  • Demonstração do Resultado do Exercício (DRE);
  • Balanço Patrimonial;
  • Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC);

O foco de hoje é entendermos o funcionamento da DRE, que costuma ser o demonstrativo mais visado pelos investidores. Nas semanas seguintes abordaremos o Balanço Patrimonial e a DFC, que considero de suma importância também.

A pergunta a seguir reflete a importância de entender a contabilidade, ou seja, a linguagem dos negócios:

É possível uma empresa ser lucrativa e ao mesmo tempo falir?

Se você respondeu sim, então acertou. Isto porque lucro e geração de caixa são propriedades totalmente distintas.

Dentro da gestão financeira pode-se observar um negócio através de duas perspectivas: o regime de caixa e o regime de competência.

  • Regime de competência: registro do evento ocorre na data em que ele aconteceu. A contabilidade define este regime como sendo o registro do documento na data do fato gerador, ou seja, na data do documento, não importando quando vai ser pago ou recebido. A DRE é elaborada baseando-se no regime de competência.
  • Regime de caixa: registro do documento ocorre na data de pagamento ou recebimento, parecido com uma conta bancária. A DFC é elaborada baseando-se no regime de caixa.

Logo, a diferença mais importante entre regime de competência e o de caixa é que no primeiro utiliza-se a data que a compra ou venda ocorreu e no segundo considera-se a data em que o dinheiro efetivamente entrou ou saiu do caixa da empresa.

Demonstração do Resultado do Exercício – DRE

A DRE resume como as operações de uma empresa foram realizadas durante um determinado período de tempo. As empresas listadas na bolsa de valores são obrigadas a enviar este demonstrativo trimestralmente.

Resumidamente, este demonstrativo informa quanto a empresa gerou de receitas, o quanto ela gastou e por fim o lucro, que é a diferença entre os dois primeiros.

Alguns setores específicos, como por exemplo bancos e seguros, apresentam uma estrutura diferente na sua DRE. Uma estrutura típica encontra-se abaixo (a empresa em questão é a Time for Fun – T4F):

Fonte: Time for Fun

Receita Operacional Líquida

Muitas empresas excluem a receita operacional bruta, iniciando a DRE pela receita operacional líquida. A diferença entre ambas é que na segunda retira-se os impostos indiretos, como por exemplo: ICMS, PIS/COFINS, ISS.

Além dos impostos, é subtraído os descontos concedidos, bem como a devolução das vendas.

Custo dos Produtos Vendidos e Serviços Prestados

Representa todas as despesas diretamente ligada a criação dos produtos ou serviços que a empresa presta. Os principais exemplos são: matéria-prima, mão de obra relativa a produção, energia elétrica e depreciação.

É importante separar os custos/despesas entre fixos e variáveis, pois com essa distinção é possível entender um outro conceito, chamado de alavancagem operacional.

Os custos fixos são gastos que permanecem constantes, independente de aumentos ou diminuições na quantidade produzida e vendida. Alguns exemplos: aluguel, salários, depreciação.

Custos variáveis são aqueles que variam diretamente com a quantidade produzida ou vendida. Alguns exemplos: matérias-primas, insumos produtivos.

Lucro Bruto e Margem Bruta

O lucro bruto é obtido subtraindo a receita líquida dos custos dos produtos vendidos e margem bruta é obtida dividindo o lucro bruto pela receita líquida.

Um feito raro que poucas empresas conseguem é aumentar o lucro bruto, mesmo com uma queda na receita líquida. Isso só é possível através de ganhos na margem bruta.

Uma empresa que tem conseguido fazer isso neste ano é a Portobello. Mesmo com uma leve queda da receita líquida, o lucro bruta cresceu 16% no comparativo semestral:

Fonte: Portobello

Despesas com vendas

Como o próprio nome diz, são despesas incorridas na tentativa de gerar vendas para uma determinada empresa. As mais comuns são: salário e comissões para vendedores, publicidade e propaganda, gastos com transporte/logística e provisão para devedores duvidosos (PDD).

Nas empresas de varejo que possuem uma financeira acoplada a operação, a provisão para devedores duvidosos será uma linha importante do balanço. Abaixo temos a DRE da Guararapes e para uma melhor compreensão dos investidores a empresa separa a linha de despesas com vendas da PDD.

Fonte: Guararapes

Despesas Gerais e Administrativas

Refere-se a despesas mais gerais da operação dos negócios de uma empresa. Alguns exemplos: salários dos colaboradores das áreas de finanças e recursos humanos, salário dos executivos e dos diretores, aluguel dos edifícios onde trabalham essas pessoas.

Quando a empresa estudada é uma corporation, ou seja, não tem um acionista com mais de 51% das ações com direito a voto, torna-se importante verificar o salário dos diretores e ver se eles são compatíveis com o restante do mercado. No documento intitulado formulário de referência é possível verificar de quanto foi a remuneração dos diretores nos últimos anos e a expectativa para o ano corrente.

Outras receitas/despesas operacionais líquidas

Refere-se a todas as outras receitas ou despesas operacionais que não se enquadram em nenhum dos itens acima. É importante observar se as outras despesas operacionais são recorrentes ou não recorrentes.

Alguns exemplos: equivalência patrimonial (resultado de outras empresas coligadas), resultado da compra ou venda de ativos, impairment (baixas de ativos).

Uma empresa que possuía essa linha como sendo bastante relevante na sua DRE é a Unipar. O “resultado da equivalência patrimonial” era tão importante, que aparecia separado da linha de “outras receitas/despesas operacionais”. O forte ganho contábil obtido pela compra da Solvay apareceu na linha de “resultado da combinação de negócios”, que a Unipar optou por separar da linha de “outras receitas/despesas operacionais”

Fonte: Unipar

A Braskem apresentou perdas nessa linha muito forte em 2016, por conta dos acordos firmados com autoridades globais no âmbito da investigação da Operação Lava Jato.

Fonte: Braskem

Lucro Operacional antes do Resultado Financeiro e Margem Operacional

Também chamado de EBIT (Earnings Before Interest and Taxes), é obtido subtraindo o lucro bruto das despesas. Através dele é possível analisar como está a produtividade operacional da empresa, excluindo os gastos financeiro e com impostos.

A margem operacional é obtida dividindo o EBIT pela receita líquida.

Empresas que possuem a maior parte de seus custos e despesas sendo fixos estará sujeita a alavancagem/desalavancagem operacional. Neste tipo de empresa, o aumento nas vendas é superior ao crescimento dos custos e despesas, provocando uma diminuição nos custos por unidade. A consequência desse fato é um crescimento na margem EBIT.

Por outro lado, a queda nas vendas será de amplitude superior a queda nos custos e despesas, provocando um aumento dos custos por unidade. Isso é a desalavancagem operacional, que resultará em uma queda na margem EBIT.

Novamente falando do resultado de Guararapes, é factível que houve alavancagem operacional durante o 1S17. Enquanto a receita líquida cresceu 7,5%, o lucro bruto subiu 13,3%, enquanto o EBIT aumentou em 451,6%. A margem EBIT passou de 2,3% para 11,7%.

Fonte: Guararapes

Do lado contrário, empresas que possuem a maior parte de seus custos e despesas sendo variáveis estarão menos sujeitas a variação de sua margem EBIT. Um exemplo é a JSL, empresa de logística com grande parte de seus custos sendo variáveis. Observe que durante o 1S17 houve crescimento de receita, mas a margem EBIT permaneceu flat em relação ao 1S16:

Fonte: JSL

Resultado Financeiro

É obtido pela subtração entre as receitas financeiras e as despesas financeiras. As receitas financeiras são obtidas principalmente dos juros das aplicações financeiras. As principais despesas financeiras são: juros das dívidas, antecipação de recebível e pagamento de IOF.

Lembre-se que o pagamento do principal não é contabilizado como despesa financeira.

Empresas que possuem um endividamento muito grande, tendem a se beneficiar de um ciclo de queda das taxas de juros, similar ao que está acontecendo hoje no Brasil. Isso porque, a maior parte das dívidas são pós fixadas e atreladas ao CDI.

Resultado antes dos Impostos

É obtido subtraindo o EBIT do resultado financeiro.

Imposto de Renda e Contribuição Social

As empresas pagam dois impostos: Imposto de Renda para Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). A alíquota incidente para a maioria das companhias é de 34% sobre o resultado antes dos impostos. Bancos sofrem tributação superior a esse valor.

Algumas empresas possuem créditos fiscais que são utilizados para diminuir a alíquota incidente sobre o resultado. Esses créditos podem ser decorrentes de prejuízo fiscal acumulado, isenção de impostos devido ao local que ela está instalada. O fato de uma empresa distribuir Juros Sobre Capital Próprio também reduz a alíquota paga.

Lucro Líquido e Margem Líquida

O lucro líquido é obtido subtraindo o resultado antes dos impostos da própria linha de imposto de renda e contribuição social.

Como uma das principais atribuições de uma DRE é identificar se uma empresa deu lucro ou prejuízo durante um determinado período, a última linha é de grande importância.

A margem líquida é obtida dividindo o lucro líquido pela receita líquida.

A DRE da FERBASA encontra-se abaixo. Durante o 1S16 a empresa reportou prejuízo, já no 2S17 apresentou um lucro robusto.

Fonte: Ferbasa

 

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Paulo Garcia
Paulo Garcia
Me chamo Paulo Garcia, sou graduado em engenharia química e apaixonado pelo mercado financeiro. Essa paixão surgiu quando comecei a trabalhar em um fundo de investimento de ações em 2014. Eu acredito que investir em ações é a melhor forma de construir riqueza e patrimônio pensando sempre no longo prazo.

12 Comentários

  1. Victor L. disse:

    Como sempre, suas colocações são muito claras.
    Parabéns!
    Abraço

  2. bernardo disse:

    Boa tarde Paulo, primeiramente parabéns pelo excelente conteúdo, com matérias de grande valor, principalmente para “value investors”. Tenho procurado por um ferramenta a bastante tempo e não encontro, talvez você possa me ajudar. Existe algum lugar onde se possa obter um gráfico do P/L historico de um determinado ativo? Obrigado!

  3. Diego disse:

    Parabéns pelo conteúdo Paulo

  4. Rômulo Martins disse:

    Olá Paulo. Mais um excelente texto. Com sempre uso seu blog como uma forma de estudo.
    Minha dúvida eu acho que não estaria enquadrada no DRE e sim no DFC.
    Quando faço uma análise, olho a maioria dos fatores colocados no post e somo a elas a análise de fluxo de caixa da empresa. Faço isso, depois de ter visto um vídeo que você mesmo indicou aqui em seu blog.
    Você considera a análise do fluxo de caixa tão importante quando o lucro líquido na análise da saúde da empresa? Pergunto isso porque vejo o LL como o hormônio que provoca o crescimento da empresa, e o FC como hemograma, aquele que dá um diagnóstico completo para o investidor na geração de valor da empresa.

    Uma sugestão de tema, seriam os múltiplos e indicadores das empresas que você usa em sua análise. Se possível o que você indicaria para análises de amadores, já que acredito que como eu a maioria dos seus leitores temos o mercado não como uma atividade principal.

    Abraço.

    • Paulo Garcia disse:

      Olá, Rômulo.
      Gostei do seu raciocínio!!!
      Acredito que o número o qual o mercado considera mais importante é o lucro líquido, mas para mim analisar o fluxo de caixa da empresa é de suma importância, ainda mais quando estamos falando de empresas alavancadas, que possuem despesas financeiras relevantes. Mas mais importante que observar os números é tentar entender porque a empresa obteve tais valores. Isso só é possível conhecendo o modelo de negócios dela.
      Boa sugestão. Em breve farei um post mais específico sobre valuation, inclusive comprei um livro sobre este tema hoje.
      Abraço

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