Finanças Comportamentais e Vieses Cognitivos

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Considere o exemplo fictício abaixo:

Uma empresa de telecomunicações que oferece os serviços de televisão por assinatura, internet e telefone lança três pacotes diferentes, conforme descrito abaixo:

  1. Pacote de internet com 10MB por R$100,00/mês;
  2. Pacote de internet com 10MB + telefone por R$200,00/mês;
  3. Pacote internet com 10MB + telefone + televisão por assinatura por R$200,00/mês;

É muito provável que o pacote 3 chame mais a atenção dos clientes, e consequentemente, tenha o maior número de assinaturas. Sabe por que?

O nosso cérebro tem dificuldade em fazer comparações absolutas, que no caso seria comparar o pacote 1 com o 3. Ele intuitivamente procura por comparações relativas e está evidente que o pacote 3 é mais atrativo do que o 2, por isso haverá maior adesão pelo serviço completo.

Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia provou por meio de pesquisas que o ser humano em muitos casos não é racional na hora de tomar decisões. Segundo ele, nós possuímos duas formas distintas de pensar: uma rápida, intuitiva, emocional e a outra mais lenta, deliberativa e lógica.

A sua contribuição tem sido de extrema importância para o desenvolvimento das finanças comportamentais, que é um ramo das finanças dedicado ao estudo da influência da psicologia humana nas decisões de investimentos.

O ponto central deste artigo é que ler e estudar sobre as finanças comportamentais pode nos fazer evitar cair em vieses cognitivos, melhorando nossas decisões de investimentos.

Vieses cognitivos constituem padrões de desvio no julgamento que ocorrem em situações específicas nas quais as conclusões são baseadas em fatores cognitivos em detrimento às evidências. Trata-se de limitações do pensamento humano e antes de enumerá-los, gostaria de elencar os livros que li ou estou lendo relacionado a finanças comportamentais:

  • A arte de pensar claramente – Rolf Dobelli;
  • Rápido e Devagar – Daniel Kahneman;
  • Previsivelmente Irracional – Dan Ariely;

Como há muitos tipos de vieses diferentes relacionados a nossa tomada de decisão, vou falar de alguns hoje. No próximo texto, além de abordar os demais, falarei de como evitá-los, com o intuito de sermos investidores melhores.

Viés de Confirmação

Este pode ser considerado o pai de todos os erros de pensamento. Ele é a tendência que temos em interpretar novas informações de modo que sejam compatíveis com nossas teorias, visões de mundo e convicções. Ou seja, somos parciais na hora de processar novas informações.

Citando um exemplo bem simples: Maria acha que vai chover toda vez em que sente dor nas costas. Por padrão, ela vai ignorar toda a vez que isso não ocorrer e somente lembrar de quanto este fato descorrelacionado aconteceu. Na menta dela, só existirão as vezes que ela, por sorte, acertou.

O vício em confirmação tem raízes no modo como as emoções funcionam: quando algo reforça nossas crenças nos sentimos triunfantes. Quando são desmentidas, nos sentimos frustrados ou até mesmo ofendidos.

Quando estamos comprados em uma ação temos a tendência em buscar apenas as notícias boas sobre esta empresa e o setor o qual ela está inserida. Considere que esta empresa em questão sofreu um incêndio em suas instalações e que também o acionista controlador tem vendido suas próprias ações nos últimos meses, mas o último resultado trimestral reportado foi bastante satisfatório. Erroneamente temos a tendência de dar muita importância para a notícia boa, desconsiderando as demais.

Viés de Autoridade

Há cerca de um milhão de economistas espalhados pelo mundo, mas nenhum previu com exatidão a última grande crise financeira mundial, provocada pelo estouro da bolha imobiliária nos EUA. Nunca um grupo de especialistas falhou de forma tão espetacular.

O fato de as autoridades se enganarem com frequência é apenas um dos problemas. Errar é humano, mas grave é o fato de que, na presença de uma autoridade, levamos nosso pensamento a um nível inferior. Em relação às opiniões de especialistas somos muito menos cautelosos do que em relação a outras opiniões e não temos por hábito questioná-los as autoridades de determinados assuntos.

Por isso quando um paciente com uma doença grave deve ouvir a opinião de mais de um médico sobre como é a melhor forma de tratamento.

Warren Buffett tem uma genial sobre este assunto: “Wall Street é o único lugar para onde as pessoas vão de Rolls-Royce pedir conselhos a quem pega o metrô”.

Segundo ele, é muito estranho que homens de negócios extremamente bem-sucedidos e inteligentes, que dedicaram suas vidas a ganhar montanhas de dinheiro, peçam conselhos sobre investimentos a corretores de ações pobres demais para seguir seus próprios conselhos. Se seus conselhos são tão bons, por que não são todos ricos?

Viés de Ancoragem

Sabe aquela famosa frase: “A primeira impressão é a que fica”. Ela está intimamente relacionada ao viés de ancoragem. Este viés cognitivo descreve a comum tendência humana em se basear de forma intensa a uma característica ou parte da informação recebida, quando em processo de tomada de decisão. Dito de outro modo, designa a dificuldade de alguém em se afastar da influência de uma primeira impressão.

Há vários experimentos que comprovam o efeito ancoragem. O psicólogo Amos Tversky, companheiro de pesquisas de Daniel Kahneman, montou uma roda da fortuna e pediu que os participantes de um experimento a girasse. Em seguida, perguntou-lhes quantos Estados eram membros da ONU. Pessoas para as quais a roda parou em um número elevado deram uma quantidade maior de Estados membros do que aquelas para as quais a roda parou em um número menor.

Citando outro exemplo, é comprovado cientificamente que, caso um professor saiba as notas anteriores de determinado aluno, ele é influenciado por elas para avaliar seu último trabalho. Os boletins anteriores atuam como âncoras.

O viés de ancoragem pode ser perigoso para um investidor de ações. Considere que o preço de uma determinada ação atingiu a sua mínima histórica após 4 anos, sendo negociada a um preço de R$5,00. Muitos investidores podem considerar atrativo comprar por este preço, pois estão ancorados nesse patamar de R$5,00, visto que é a mínima histórica após muito tempo.

É altamente provável que os fundamentos econômicos desta empresa tenham se deteriorado nos últimos anos, o que levou a queda do preço das suas ações. Comprar simplesmente porque o papel está em baixa pode ser um péssimo negócio.

Viés de Sobre-Reação

Este é um viés menos relacionado ao nosso dia a dia, mas bastante influente no mercado de ações. Estudiosos do comportamento descobriram que as pessoas tendem a reagir de forma exagerada às más notícias e reagir lentamente às boas notícias. Os psicólogos chamam esse fenômeno de viés de sobre-reação, o que significa que notícias de desempenho passado das empresas podem influenciar o processo de tomada de decisão, causando euforia ou desânimo excessivo, provocando uma reação exagerada no mercado.

Os investidores, em particular, tendem a se fixar na informação mais recente que receberam e extrapolar inferências a partir dela. Assim, o último relatório trimestral se transforma, em suas mentes, em um indicativo de lucros futuros. Dessa maneira, acreditando que estão enxergando algo que outros não perceberam, eles tomam decisões rápidas baseadas em um raciocínio superficial.

Considere que você é acionista de uma empresa, onde o CEO foi o grande responsável por um turn around operacional, tirando-a da recuperação judicial e após 4 anos ela esteja reportando lucros recordes. Num determinado dia, após o fechamento do mercado, este CEO anuncia que quer tocar outros projetos e renunciará ao seu cargo. Caso você tenha desanimado da sua tese de investimentos por conta desta notícia, provavelmente o pior momento para vender suas ações seja no dia seguinte, com um impacto maior caso a venda seja realizada no leilão de abertura. Isto porque neste momento o viés de sobre-reação estará mais latente, afetando com intensidade o preço desta ação.

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Paulo Garcia
Paulo Garcia
Me chamo Paulo Garcia, sou graduado em engenharia química e apaixonado pelo mercado financeiro. Essa paixão surgiu quando comecei a trabalhar em um fundo de investimento de ações em 2014. Eu acredito que investir em ações é a melhor forma de construir riqueza e patrimônio pensando sempre no longo prazo.

4 Comentários

  1. Leonardo disse:

    Ótimo Post Paulinho. Transmitiu muito bem os ensinamentos de Khaneman.

  2. Rômulo disse:

    Excelente Paulo. Bom voltar a ler o seu blog. Sempre acrescenta bastante.

    Abraço

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