A importância da Alocação de Capital

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Um dos objetivos de toda empresa deve ser gerar lucro. Somente assim é possível pagar funcionários, fornecedores, impostos, bancos e também os seus acionistas.

A alocação de capital, ou seja, a destinação do excesso de caixa gerado por uma empresa é um dos principais fatores que determinará a sua lucratividade no decorrer dos anos. Para os investidores que são adeptos do value investing e possuem visão de longo prazo é crucial observar este ponto.

Os responsáveis por esta tarefa são os diretores, principalmente o presidente, financeiro e de operações. Não à toa, Warren Buffett dá bastante importância em relação a quem toca o negócio, sendo que isto pode ser um impeditivo na compra de uma empresa ou parte dela através do mercado de ações.

Sobre este tema, Warren Buffett comentou: “Um problema comum é uma baixa habilidade de alocação. Os CEOs muitas vezes chegam a suas posições devido a um desempenho excelente em outras áreas da empresa, incluindo administração, engenharia, marketing ou produção. Como possuem pouca experiência em alocação de capital, a maioria dos CEOs se voltam a seus subordinados, consultores ou bancos de investimentos. Se o CEO desejar uma aquisição potencial que requeria um retorno sobre o investimento de 15% para justificar a compra, é incrível ver a rapidez com a qual suas tropas lhe informam que o negócio pode de fato atingir 15,1%”.

Os principais destinos do excesso de caixa gerado estão listados abaixo:

  • Aquisições;
  • Crescimento Orgânico;
  • Pagamento de Dívidas;
  • Distribuição de Dividendos;
  • Recompra de Ações;

Aquisições

Raras são as empresas que conseguem gerar valor aos seus acionistas a partir de aquisições. Mais difícil ainda é quando se adquire uma empresa que não tem relação nenhuma com o core business da compradora.

No momento do anúncio da compra é muito comum ouvirmos a palavra sinergia. Segundo Peter Lynch, sinergia é um nome complicado para a teoria de “dois mais dois é igual a cinco” de reunir negócios relacionados e fazer a coisa toda funcionar.

Um dos exemplos mais bem-sucedido na bolsa brasileira é a Kroton. Vale mencionar que as suas duas principais aquisições, Anhanguera e Unopar, envolveram emissão de ações, diminuindo o desembolso pago. A integração das empresas teve um impacto positivo nas margens, o que permitiu o crescimento acelerado do lucro líquido:

Fonte: www.fundamentus.com.br

Fonte: www.fundamentus.com.br

 

Do lado negativo tivemos inúmeros casos ao longo do tempo. Lembre-se que na maioria das vezes os resultados tendem a ser negativos.

Citando um exemplo de uma aquisição que não deu certo e não estava relacionada ao core business da empresa: em 2011, a Unipar Carbocloro, empresa fabricante de cloro e soda, adquiriu 25,25% do capital da Tecsis, fabricante mundial de pás customizadas para geradores de energia eólica, pelo valor de US$80mi.

Ao longo dos anos esse negócio apresentou seguidos prejuízos fazendo com que a Unipar optasse por fazer o desinvestimento em julho deste ano, pagando o montante de R$110mi para cobrir o passivo descoberto da Tecsis na proporção de sua participação.

Por outro lado, a compra de duas plantas industriais da Solvay Indupa realizadas no final de 2016 parece ter sido um excelente negócio feito pela Unipar e, ao que tudo indica, altamente gerador de valor aos seus acionistas.

Crescimento Orgânico

Muitas empresas crescem replicando o seu modelo de negócios bem-sucedido. As Lojas Renner, por exemplo, alocou boa parte do seu capital na abertura de novas lojas, conforme demonstrado abaixo:

Fonte: Lojas Renner

O varejo de moda no Brasil é um setor altamente pulverizado, que se caracteriza por ter poucas aquisições relevantes. As grandes empresas, como por exemplo, Renner, Riachuelo, C&A, Hering cresceram nos últimos anos através da abertura de novas lojas.

Como essas empresas já possuem investimentos feitos na área de logística, abrir uma loja nova não implica em investimentos adicionais no centro de distribuição (apenas no aumento do estoque), aumentando o retorno sobre o capital investido, além de implicar em maior poder de barganha frente aos fornecedores.

A Grendene, companhia que se caracteriza por ser altamente lucrativa, decidiu constituir uma empresa não muito relacionada ao seu negócio principal em 2013. A A3NP pretendia desenvolver e vender móveis com design sofisticado e custo acessível para a classe média. Ao longo de sua existência os resultados esperados foram insatisfatórios, o que levou a Grendene a descontinuar esta operação no início de 2016.

Pagamento de Dívidas

Apesar de muitos investidores acharem que ter dívidas é algo ruim para empresas, isso não necessariamente é verdade. Alguns setores se caracterizam por ser intensivo em capital, logo é necessário capital de terceiros para financiar os seus próprios ativos.

Dentre esses setores podemos citar: concessões, shoppings centers, energia elétrica. Normalmente as empresas situadas nos setores mencionados acima possuem como característica receitas com boa previsibilidade. Para se ter uma ideia, as cinco empresas de shoppings listadas em bolsa possuem relação dívida líquida/ebitda acima de 2 vezes, mas o custo da dívida é bastante atrativo.

Então uma boa dica é observarmos a estrutura de capital dos concorrentes e também se o custo da dívida da empresa em questão é competitivo. Lembre-se que o fato de uma companhia ter dívidas reduz o imposto de renda a pagar, pois a alíquota de IR é calculada sobre o lucro operacional subtraído do resultado financeiro.

Costuma-se dizer que uma empresa está gerando valor aos acionistas quando capta uma dívida e investe em projetos com retornos superiores ao custo dessa dívida.

Distribuição de Dividendos

Esta é uma forma de alocação de capital que costuma agradar os acionistas. As empresas brasileiras listadas em bolsa tem como obrigação distribuir pelo menos 25% do lucro líquido aos seus acionistas, seja na forma de dividendos ou de juros sobre capital próprio (JCP).

Se uma empresa distribui quase a totalidade dos seus lucros aos acionistas, isto pode ter dois significados:

  1. Modelo de negócio asset light, onde é necessário pouco ou praticamente nenhum investimento para crescer. Exemplos: IRB Brasil, BB Seguridade, Wiz.
  2. Não conseguem encontrar investimentos que remunerem o capital adequadamente;

Então é necessário muito cuidado quando se investe em uma determinada empresa apenas por conta de sua alta distribuição de dividendos. Lembre-se que caso o lucro líquido diminua ao longo dos anos é bastante provável que os dividendos distribuídos também se reduzam.

Recompra de Ações

Esta também é uma forma de alocação de capital que costuma agradar os acionistas, mas não necessariamente é boa.

Isto porque muitas empresas utilizam todas ações obtidas durante o programa de recompra no plano de opções de seus executivos. Não que stock option seja algo ruim, mas é sempre importante analisar quais os critérios utilizados nesse tipo de bonificação.

A grande sacada positiva de um programa de recompras é que recomprando as suas próprias ações e depois cancelando-as, diminui-se a quantidade de ações em circulação, aumentando o lucro por ação dos acionistas.

O exemplo abaixo ilustra bem isso. A Grazziotin reportou crescimento de 2,6% do seu lucro líquido no comparativo entre 3T17 e 3T16. Mas durante esses 12 meses ela abriu dois programas de recompras e mantém uma grande quantidade de ações em tesouraria que serão canceladas em breve.

Considerando que as atuais ações em tesouraria serão canceladas, o lucro por ação cresceu 10,6% no 3T17, número bastante superior ao reportado pela empresa.

Fonte: Grazziotin

Para finalizar o assunto replicarei uma frase de Peter Lynch: “Se a empresa tiver de adquirir alguma coisa, eu preferiria que fosse um negócio relacionado, mas as aquisições, em geral, me deixam nervoso. Há uma forte tendência entre as empresas que possuem muito dinheiro e que se sentem poderosas de pagar mais caro pelas aquisições e de ter muitas expectativas em relação a esses negócios e, então, administrá-los de modo equivocado. Eu preferiria ver uma vigorosa recompra de ações, que é a forma mais pura de sinergia.”

 

 

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Paulo Garcia
Paulo Garcia
Me chamo Paulo Garcia, sou graduado em engenharia química e apaixonado pelo mercado financeiro. Essa paixão surgiu quando comecei a trabalhar em um fundo de investimento de ações em 2014. Eu acredito que investir em ações é a melhor forma de construir riqueza e patrimônio pensando sempre no longo prazo.

6 Comentários

  1. Mais um excelente artigo, explicando passo a passo as vantagens e desvantagens de cada um.

    Eu gosto que as empresas usem parte do lucro para pagar suas dividas de maneira a terem uma divida baixa ou pelo menos controlável para poderem passar com tranquilidade os momentos de crise.

    Se depois disso sobrar algum dinheiro eu gosto que distribuía aos acionistas em forma de dividendos para poder acumular num lugar de liquidez diaria para quando ocorrer as crises poder comprar excelentes empresas a preços abaixo do seu valor intrínseco de maneira a ter uma margem de segurança, assim acumular mais ações que geraram mais dividendos no futuro.

    Abraços

  2. Rocha disse:

    Paulo,
    qnd vai fazer a postagem da carteira de outubro?

    Abç!

  3. Luiz disse:

    Olá Paulo tudo bem? Gostaria de sua opinião sobre as ações de Movi3. Comprei a um Pm de 9,55 e hoje após 3 meses vejo esse capital desvalorizado em 23%, uma queda bastante expressiva. A empresa vem apresentando crescimento nos lucros a cada trimestre, acredito que possui diferenciais competitivos interessantes, porém me preocupa: P/L e dívidas altas. Poderia me dar uma opinião sobre o que pensa sobre esta ação ? Sinceramente como investidor iniciante ainda penso em baixar meu PM, porém fico em dúvida sobre sua capacidade de pagar toda essa dívida.

    • Paulo Garcia disse:

      Olá, Luiz
      Tudo bem?
      A decisão de comprar ou vender tem que ser estritamente sua. Sobre esse ativo, ao meu ver a queda das ações da Movida decorre principalmente da alta expectativa criada com a empresa durante o IPO. Ela tem tido alguns problemas operacionais e não tem conseguido entregar o resultado que o mercado esperava. Para piorar, o seu principal par, a Localiza, tem surpreendido o mercado com excelentes números, o que indica que o setor vai bem. Muitos fundos tem feito a operação long Localiza e short Movida, o que gera uma pressão adicional sobre esse segundo papel.
      Não acho que o endividamento seja um problema, pois até então o foco dela era crescer.
      Abraço

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