Vieses Cognitivos – Parte 2

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Dando sequência ao último artigo, a seguir mais alguns vieses comportamentais que causam impacto na nossa vida, principalmente no que tange a investimentos:

Efeito Posse

É muito comum em transações envolvendo um carro ou uma casa o dono do ativo achar que seu bem vale mais do que o valor o qual o comprador está disposto a pagar.

A inclinação de um indivíduo em supervalorizar um ativo que possui está intimamente relacionado ao efeito posse. Há três razões principais que explicam este viés comportamental:

  1. Nos apaixonamos pelo que temos;
  2. Costumamos nos concentrar naquilo que podemos perder, e não no que vamos ganhar;
  3. Presumimos que os outros vão encarar esta transação com a mesma perspectiva que a nossa, ou seja, levando em consideração todas as emoções e recordações que o ativo em questão nos traz a mente;

Se apaixonar por uma determinada ação pode ser um dos piores erros de um investidor. Neste post (http://www.analisandoacoes.com.br/mercado-de-acoes/eu-erro-tu-erras-ele-erra/) comentei que até mesmo os gestores mais experientes sofrem com essa questão.

Aversão a Perda

Estudiosos das finanças comportamentais afirmam que a dor da perda é muito mais intensa que o prazer do ganho e que para R$1 perdido temos que ganhar R$2 para equilibrar nossas emoções.

Considere um exemplo com dois investidores que possuem R$100.000 em um portfólio de ações e obtiveram os seguintes resultados em janeiro e fevereiro:

Investidor A: ganho de R$15.000 em janeiro e perda de R$10.000 em fevereiro chegando ao final do período com R$105.000;

Investidor B: ganho de R$2.000 em janeiro e ganho de R$2.000 em fevereiro chegando ao final do período com R$104.000;

É muito provável que o Investidor B esteja mais contente com o seu resultado, mesmo tendo ganho uma quantia inferior ao Investidor A durante o mesmo período. Isto, porque ele sofreu menos com a emoção da perda durante os dois meses.

Outro problema relacionado a este viés comportamental é não se desfazer de teses que não vingaram para não sair com prejuízo na operação. Muitos investidores só conseguem se desfazer de uma ação quando a mesma atinge o seu preço médio, pois nesse instante ele tem a falsa sensação de que não perdeu dinheiro.

 

Efeito Manada

Este viés cognitivo deriva da época de nossos ancestrais (homem das cavernas) e está presente em nosso DNA até os dias de hoje. Naquela época, quando um caçador avistava outro correndo rapidamente a primeira reação era repetir exatamente esta ação, pois o corredor poderia estar fugindo de algum animal selvagem.

Se você estiver dentro de um shopping e repentinamente observa uma multidão de pessoas correndo para fora deste shopping, qual a sua reação? Provavelmente correrá junto com os demais.

Na maior parte do tempo não sabemos o que queremos, e por conta disso o ambiente o qual estamos inseridos tende a direcionar nossos desejos, influenciar nossos pensamentos e definir nossas escolhas. Talvez essa é uma das razões que justifica a “febre” do Bitcoin aqui no Brasil. Está fora do meu círculo de competência avaliar se este é ou não um bom investimento, mas tenho certeza que o pensamento abaixo tem sido recorrente para muitos compradores desta moeda virtual:

“Poxa, meus amigos João, Pedro, Maria compraram Bitcoin e podem multiplicar o capital em pouco tempo. Como eu vou me sentir se isto ocorrer e eu acabar não participando da festa? Bom, se há um milhão de brasileiros comprando esta criptomoeda isto não pode ser ruim.”

Excesso de Confiança

Refere-se a tendência humana de ser excessivamente confiante em seus comportamentos, atributos e características.

Uma pesquisa que demonstra o quão confiante os indivíduos são é a de questionar se eles se consideram motoristas acima da média. A grande maioria dirá que sim, o que não faz muito sentido, pois o correto seria termos um número próximo a 50%.

No mercado financeiro este viés pode ser fatal, ainda mais agora que o IBOVESPA atingiu a sua máxima histórica e tem aparecido cada vez mais gênios nesta área. Muitos iniciantes, pelo fato de estarem tendo excelentes resultados iniciais, podem cair em excesso de confiança e ter a “brilhante ideia” de operar alavancado, por exemplo. O resultado que me vem à mente de falta de conhecimento + operar alavancado não é nada bom.

Evitando armadilhas

Conforme vimos, vieses cognitivos são limitações do pensamento humano e eles podem atrapalhar a tomada de decisão de um investidor. Elenquei abaixo algumas medidas que ajudam na prevenção destes erros:

  • Ter humildade e sempre lembrar que o mercado é imprevisível;
  • Evitar especulação;
  • Tomar decisões com base na racionalidade e com o mínimo de emoção possível;
  • Não se ancorar nos preços, mas sim nos fundamentos;
  • Fugir das “dicas quentes” fazendo uma análise independente;
  • Ser seletivamente contrário a opinião geral, pois em lugares desprezados há boas possiblidades de encontrar barganhas;
  • Não se apegar a uma ação. Se ela deixar de ser atrativa do ponto de vista dos fundamentos, simplesmente venda;
  • Prejuízos fazem parte do processo, mas o importante é aprender com os próprios erros e também com o dos outros, a fim de evitá-los no futuro;
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Paulo Garcia
Paulo Garcia
Me chamo Paulo Garcia, sou graduado em engenharia química e apaixonado pelo mercado financeiro. Essa paixão surgiu quando comecei a trabalhar em um fundo de investimento de ações em 2014. Eu acredito que investir em ações é a melhor forma de construir riqueza e patrimônio pensando sempre no longo prazo.

12 Comentários

  1. Excelente post, gostei muito da parte evitando as armadilhas, costumo usar quase todas as estratégias, para me livrar da maioria dos problemas, são muito boas!

    Abraço e bons investimentos.

  2. Olá Paulo, essa parte:
    “Poxa, meus amigos João, Pedro, Maria compraram Bitcoin e podem multiplicar o capital em pouco tempo. Como eu vou me sentir se isto ocorrer e eu acabar não participando da festa?”

    Se aplica muito bem aos famosos “bolões” de loteria em alguma empresa, ou mesmo na família. Vejo sempre vários colegas entrando por medo de os outros ganharem e ele não.

    Ótimo post, um abraço e fica com Deus

    • Paulo Garcia disse:

      Olá, Diário de um Poupador.
      É verdade. O exemplo que citei cabe perfeitamente nos bolões de fim de ano.
      Eu mesmo que não tenho o costume de jogar na loteria, no fim de ano acabo fazendo parte desses bolões comunitários, meio que com esta ideia de todos ganharem e eu ficar de fora.
      Abraços,

  3. André Marafon disse:

    Boa tarde Paulo,
    Excelente matéria. Uma pena que você teve que parar de publicar as suas análises; eram muito boas. Quais livros você indicaria para quem quer apreender mais a lidar com a parte emocional do investidor fundamentalista de Longo Prazo?

    Abraços
    André

    • Paulo Garcia disse:

      Olá, André.
      Fico contente que você tenha gostado das análises das empresas. Quem sabe em breve eu divulgue mais alguma.
      Quanto a sua pergunta, os três livros que indiquei no último post falam muito sobre o nosso aspecto emocional nas tomadas de decisões. Por mais que o foco deles não seja para investidores especificamente, a mensagem que eles passam agregam muito para nós.
      Outro livro que fala sobre o lado emocional do investidor e também tem muito conteúdo relacionado a analise fundamentalista é o “O Jeito Warren Buffett de Investir”. Você já leu?
      Abraços,

  4. Luís Gustavo disse:

    Olá Paulo. Quais livros você indica nessa área de finanças comportamentais ?

    Obrigado.

  5. Luiz disse:

    Muito bom post Paulo!
    É mesmo uma pena não contar mais com suas análises, torço pra que logo volte a postá-las pois realmente são muito boas. Fico feliz em manter o conteúdo aqui pois sempre utilizo como forma de estudo e aprendizado.
    Sucesso e até logo!
    Abs

  6. isaque martins disse:

    Excelente post Paulo. Gostaria de receber informações sobre o fundo de investimentos que você trabalha. Está disponivel em alguma plataforma? Desde já agradeço. Sucesso.

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